terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Irônica Aristotélica

Eu, mãe solteira, ouvindo Inaê brincar na sala com a babá. Na mão direita, a Política de Aristóteles, que leio ao mesmo tempo em que a mão esquerda, empunhando uma colher de pau, mexe o ensopadinho de verduras que faço para juntar à quinoa do almocinho de Inaê.
Que irônico. A cada parágrafo de Aristóteles sobre formas de governo, Cidade e cidadãos, uma e outra afirmação sobre a "inferioridade natural" da mulher, que justifica o poder paterno do marido sobre a esposa assim como a de um senhor sobre seus escravos. Sim, eu fazendo o almoço da minha menininha ao tempo em que leio o pai da filosofia prática me chamar de inferior.
Bem, o conforto é que, desconfio, de lá pra cá Aristóteles já andou mexendo muitas panelas, pra aprender.
Quem sabe hoje também é mãe de uma menininha e, espero, esteja a lhe ensinar a se virar nesse mundo machista.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Toque

Todo dia, quando chega o final do dia, inicio o ritual do sono. Brincamos das cinco às seis junto com os priminhos, e mais ou menos seis e meia dou um banho gostoso na minha flor e lhe ofereço o jantarzinho. Lá pelas sete e meia para oito horas, venho embalá-la na rede da varanda ou na cadeira de balanço no quarto.
Ela, já sabendo que é hora de dormir, se posiciona para mamar e assim fica até pegar no sono.
Dia desses, enquanto mamava, já de olhos fechados deixou a mãozinha quente passeando no meu braço, num carinho que se tornou habitual. Das outras vezes, eu havia lembrado daquele toque, mas não havia associado com o quê; nesse dia, enquanto eu sentia a sua mãozinha firme em minha pele, entendi de onde eu lembrava do carinho: da minha mãe, do meu pai.
É um carinho que se diferencia porque o passeio pela pele é de reconhecimento: é um carinho de quem já conhece o que é o amor, e o está dizendo pelo toque.
É um carinho de quem sabe quem sou em sua vida

sábado, 13 de dezembro de 2008

Do Maior Presente

Quando criança, escutei bastante a história da Bela Adormecida, de quando, ao nascer, recebeu de suas várias fadas-madrinhas as virtudes como presentes. Cada qual lhe presenteava com beleza, delicadeza, talento...não foi exatamente por isso, mas recordando dessa história convidei seis pessoas para serem madrinhas e padrinhos de Inaê.
Presenteando com a fé e a busca espiritual, convidei Cristina e seu marido Romário para serem os padrinhos religiosos.
Presenteando com a amizade duradoura, convidei Sandra e seu marido Mariano.
Presenteando com a busca incessante pelo significado da vida, convidei Janine e meu amigo Maurício. Não são casados entre si e nem mesmo se conhecem; mas são escorpianos do meu coração que, com certeza, quando se virem terão imediatamente profunda empatia um pelo outro.
O maior presente de tudo - o amor da amizade que nutro por cada uma, cada um.
Às outras amigas, um aviso: quero ter mais filhas!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Glossário de Mãe Coruja

Inaê, 1 ano e 1 mês. Chama:
mamãe-a (depois que entendeu que titi é titi-a, só quer me chamar de mamãe-a);
titi-a;
bobó (vovó);
bobó 2 (bola, a mesma coisa);
ábua (água, sua palavra preferida);
ômi (o "homem da bicicleta", que vemos passar pela janela);
iz (nariz);
mbia (umbigo);
man (banho);
eite (leite, da mamãe, claro, também chama assim os meus peitos);
Eide (Leide, a babá);
Aaana (Ana, a babá do priminho);
Bubu (Juju, a priminha);
oufffisz (orelha ou ouvido, não sei bem ainda...);
tau (tchau);
Dedé (o zelador do prédio, seu Dudé);
neném (fotos, crianças, pessoas passando);
txitxi (xixi, quando faz ou quando vê o peniquinho);
tente (pente);
naum (não, ainda mostrando o dedinho indicador);
ábi (chave);
menini-a (menininha);
ua (lua);
aií (ali);
athi (aqui);
bô (acabou, quando terminou o almoço ou não quer comer mais);
au-au (cachorro, né?);
aubo (óculos).

sábado, 15 de novembro de 2008

Das Fadas e Megeras

Ser mãe é, entre outras coisas, escrever um livro cotidianamente. Cada situação nova é uma crônica diária, cada beijinho uma poesia, cada aprendizado um conto. É também viver um conto-de-fadas europeu - não somente com as suas fantasias cor-de-rosa, mas inclusive o terror das megerices das bruxas más que sempre assustam a bela princesa.
Não é que essa é uma constatação que me pegou de surpresa?
Soube a um trocar de fraldas. Inaê, como desde os oito meses, ao ver que terá a fralda trocada começa a espernear, gritando desesperada como se algo terrível lhe fosse acontecer. Fico rindo, brincando, dizendo-lhe palavras de tranqüilização. Mas ela, naquele dia, debatia-se com um desespero, batendo as pernas, saindo da birra para adentrar ao cenário do ataque histérico. Epa, peraí. Minha filha não vai ficar me dominando ao bater dos pés, não senhora.
Começo a ficar séria, sizuda, e a lhe dizer com firmeza para ficar um pouquinho só parada pra eu limpá-la e colocar uma fralda novinha e seca.Ela começa a me desafiar, jogando-se para os lados, no que eu tenho de segurá-la com força para que não caia do alto trocador. Chego ao ponto, portanto, de ter de imobilizar suas pernas com o braço, enquanto de cara feia por aquela sua atitude histérica, continuo a ralhar com a menininha de como aquilo que ela fazia era feio e não ajudava mamãe a lhe deixar sequinha e cheirosa, sem assaduras.
Ao final, vencida, ela já faz um chorinho manso, verdadeiro, e ao pegá-la no colo afunda a cabeça no meu ombro. Isso me faz arrepender da força física usada para segurar suas pernas, da impaciência no meu tom de voz, da cara feia; do arrependimento, vem a vontade de abraçá-la, o que faço lamentando por minha impaciência e pedindo a ela que me ajudasse a fazer aquilo sem brigas. Logo depois ela dorme, e eu, assustada, percebi os elementos do conto-de-fadas: eu havia, ali, me transformado em uma verdadeira bruxa-megera!
Coloquei Inaê no bercinho, afaguei seus cabelos, disse o quanto a amo e cerrei o mosquiteiro. E fiquei pronta para, quando ela acordasse, recebê-la com um sorriso de fada-mãe e um abraço pacificador.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Da Saudade

Passei uns dias pregada no computador, terminando um relatório com prazo a ser entregue. Como trabalhadora da casa e na casa, fiquei próxima a ela, acompanhando seus passos ao longe, ouvindo suas reclamações, fazendo seu almocinho e lanche, mas atenta aos marcos teóricos, conceitos e dados sociais com que trabalhava. O resultado depois desses poucos dias foi a saudade grande: não basta apenas estar perto fisicamente dela, percebi, quero poder pegar em sua mãozinha e lhe auxiliar nos primeiros passos, confortar nos primeiros tombos.
Entregue o relatório, ainda terei outras fases da consultoria, incluindo quase uma semana toda de trabalho na rua. Ainda bem que é apenas uma semana...mas essa saudade já é mesmo inevitável.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Da Felicidade

Passada a virose, a sensação ruim de perda sem-sentido e melancolia passou junto. Graças a Deus e ao leitinho (e oração) da mamãe, Inaê se alimentou dos meus soldadinhos internos para resistir à doença que me derrubou por alguns dias e bagunçou minha agenda e casa. Retorno ao lar, esta felicidade interior que me sorri todos os segundos em que olho Inaê passeando pela casa, se apoiando em minhas pernas para se levantar e me dar um abraço gostoso de quem acabou de descobrir um dos mistérios de amar alguém.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Personificação da Tristeza

Nos últimos dias andei enfrentando algumas coisas não muito fáceis. Uma delas foi uma virose chata que me fez secar dois quilos em meio dia - pra se ter uma idéia do que foi. Nada ficava dentro. E um dos sintomas também dessa tal virose é (digo no presente porque ela ainda me deixa alquebrada nesse momento) uma tristezinha, uma certa melancolia que parece comum nessa falta de saúde.
Como não tenho no momento nenhum motivo concreto para ser melancólica - e espero que nunca mais! - personifiquei em Inaê uma coisa sem sentido, uma saudade de quem está presente, uma vontade de ficar agarrada, embora não seja sensato diante da possibilidade de contágio. Ela me olha dengosa e diz "mamã", estendendo os bracinhos, e isso ao invés de me dar alento me dá uma tristeza irracional, de quem teme a perda, a distância, desse ser tão amado.
Não faz sentido. Mas me consola saber que, recuperada, essa tal Tristeza se transformará de novo em uma letra de samba.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Dez Meses

Inaê fez ontem dez meses de nascida. Tão pouco tempo para minha referência balzaquiana; mas no espaço de um a-tempo sentimental, parece toda a vida. Desde que ela nasceu sinto que sempre fui mãe de Inaê. Talvez sim. Ou, quase certeza.
Agora é momento de começar a entender que ela vem precisando de novas dinâmicas. Já não depende mais de meu peito para se alimentar, apenas para o acalanto. O desmame é mais sofrível pra mim do que pra ela, percebo. Fico observando se tenho ainda bastante leite, e na mínima e gradual diminuição sinto um apertozinho no coração. Mas tenho a consciência de que não sou dona da moça, que ela veio pra cumprir sua própria e distinta missão. E que os novos alimentos são também o fortalecimento disso.
Rudolf Steiner ensina, no livrinho bem interessante intitulado "A Educação da Criança segundo a Ciência Espiritual", que até os sete anos a criança ainda está sendo "gerada" no corpo etérico da mãe, e com a mudança de dentição nessa idade é que seu próprio corpo etérico já está formado para se dissociar, qual um parto em um plano fino, do nosso corpo etérico. Não quer dizer, é o que penso, que já não demonstre sua autonomia e individualidade nessa fase: sinto-as tão presentes em Inaê, com esse tão pouquinho tempo de encarnação. Afinal, o espírito já nasce pronto. Só a sua consciência que vem se apresentando com o trabalho nesse plano.
Espero estar cumprindo bem minha missão de mãe, percebendo a hora de mudar junto das mudanças de Inaê.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ar

Inaê é aventureira. Costuma escalar no meu colo, de um jeito que preciso improvisar em meus braços um equipamento próprio de segurança para os seus esportes radicais. A tia diz que ela está tentando voar, porque pensa que ainda é fada; a avó diz que ela pensa ser passarinho.
Mas suas últimas aventuras mesmo estão nas palavras; balbucia novas sílabas constantemente, elabora, pensa, olha, imita. Vai de mamã, titi, nã, nani (nananinanão), aô (alô), tá, qué, tente (pente) e outras experimentações feitas no calor das circunstâncias. E se ri toda pra estalar a língua em beijinhos. Leve como o Ar de que é feita sua leveza.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Rio que Leva e Traz

Fui pela manhã a uma reunião no Recife Antigo, que nem se realizou como o planejado. Mas não desperdiçamos a manhã. Eu e minha amiga de trabalhos nos sentamos no Delta Café e saboreamos pequenas xícaras doces com um francezinho e um croissant, ao tema das atividades a serem pensadas, elaboradas e executadas.
Depois fomos, obviamente, à Livraria Cultura, às nossas compras livrescas. Eu estava há dias de olho num livrinho para Inaê, que em seus nove meses gosta de provar a todos que vê pela frente. Acabei comprando dois, um com um fantoche de dedo e outro com um mordedor de bolinhas coloridas.
Ao irmos embora, nos despedimos falando do rio. Disse à minha amiga gostar um tanto daquela parte de Recife, principalmente por ter de caminhar sobre a ponte para pegar o ônibus - a impressão, disse-lhe, é que essa passagem leva e traz pensa-sentimentos, algo como uma boa lavada da aura.
Caminhei sobre a ponte, pensando nos livrinhos dela, dela em casa ao chão se arrastando e se dependurando nos móveis. Ao final da ponte, já estava com toda a sua imagem formada em mente, recebendo os livrinhos, analisando-os de cima a baixo, frente e trás, olhando pra mim e dando sua risadinha já tão característica.
Cheguei então ao outro lado, como previa, mais limpa, com um sorriso no coração pela lembrança de sua risada.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Entendendo a Dor

Dia desses, ela tentava se levantar na porta de vidro da varanda. Deixei-a à vontade, observando de perto, sentada ao chão. Pôs força demais no impulso e, resultado, a cabecinha bateu no vidro da porta com algum impacto. Não tanto para fazer galo, mas o suficiente para traduzir na dor do experimento.
Pois agora toda vez que ela faz sua expedição na sala, chega perto devagarinho da porta e suavemente bate a testinha no vidro, como a lembrar que ali já houve dor.